«Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se, para lhes testemunhar seu amor; e por reconhecimento não recebe da maior parte deles senão ingratidões.»(Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018


PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS DE AGOSTO, DEDICADA AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


Sagrado Coração de Jesus - Roma, Itália


CORAÇÃO DE JESUS, MODELO DA MANSIDÃO
(Por Santo Afonso de Ligório)


Um dos caracteres mais atrativos e especiais do Coração de Jesus é a virtude da mansidão: Aprendei de mim, dizia ele, que sou manso e humilde de coração. (Mt 11, 29) Nosso divino Redentor foi chamado Cordeiro: Ecce Agnus Dei, não somente por causa do sacrifício da cruz em que ele devia ser imolado para expiar os nossos pecados, mas ainda por causa da mansidão que mostrou durante toda a sua vida, e particularmente no tempo de sua dolorosa paixão.

Vós não sabeis que espírito vos impele. (Lc 9, 55) Tal foi a resposta do Salvador aos discípulos que lhe pediam castigasse os Samaritanos, quando o expulsaram do país. Ah! Que espírito é este? Dizia -lhes. Não é o meu: meu espírito é só mansidão e bondade. Eu não vim para perder, mas para salvar as almas; e vós quereis me obrigar a perdê-las? Calai-vos, não me façais mais tais pedidos, porque este não é o meu espírito.

Com que mansidão tratou Jesus, com efeito, a mulher adúltera! Contentou-se de lhe recomendar não pecasse mais, e fosse em paz. Pelos mesmos testemunhos de bondade é que ele empreendeu a conversão da Samaritana: começou por lhe pedir de beber; em seguida disse-lhe: Oh! Se soubésseis quem, é Aquele que vos pede de beber! Revelou-lhe, enfim, que ele era o Messias esperado. (Jo 4) De que bondade usou também para com o traidor Judas, a fim de fazê-lo entrar em si mesmo. Deu-lhe a comer do seu mesmo prato; lavou-lhe os pés; e no momento mesmo em que este desgraçado executava a criminosa traição, ainda o advertiu por estas bondosas palavras: Judas, é então com um ósculo que me trais? Pedro o renega; e como Jesus se vinga? Ao sair da casa do Pontífice, sem repreender a Pedro sua infidelidade, volve sobre ele um olhar de ternura, que o converte. (Lc 22, 68) E Pedro chorou toda a vida a injúria que tinha feito a seu divino Mestre. Quando, em casa de Caifás, Jesus foi esbofeteado e tratado de temerário, contentou-se de responder: Se faltei mal dize-me em que; se bem, porque me bates? (Jo 18, 23) E Jesus praticava esta doçura até a morte: estando sobre a cruz, quando seus inimigos o acabrunhavam de ultrajes, ele não fazia senão rogar a seu eterno Pai que lhes perdoasse: Meu Pai, perdoa-lhes, porque não sabem, o que fazem. (Lc 23, 34)

Oh! Quanto agrada ao Coração de Jesus um coração manso! Sim, ele ama os corações cheios de mansidão, que sabem suportar as afrontas, perseguições, calúnias, escárnios, e até as pancadas e feridas, sem se irritar contra aqueles que os ultrajam ou ferem. Suas orações são sempre agradáveis a Deus, (Jud 9, 16) isto é, são sempre atendidas. O paraíso é prometido especialmente àqueles que são mansos: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra prometida do céu. (Mt 5, 4) Segundo a expressão do padre Alvares, o céu é a pátria daqueles que na terra são desprezados, perseguidos, calcados aos pés. Com efeito, a eles e não aos homens soberbos, honrados e estimados do mundo, é reservada a posse do reino eterno. Davi assegura que os que são mansos, não somente obterão a eternidade bem-aventurada, mas gozarão, ainda nesta vida, paz inalterável. (Sl 36, 11) Porque os santos, longe de conservarem ressentimento contra aqueles que os maltratam, mais os amam, o Senhor, em paga de sua paciência, aumenta sua paz interior.
Jesus e o Sermão da Montanha

Não nos entreguemos, pois, aos ímpetos da cólera; não abramos jamais a esta violenta paixão, sob que pretexto for, a porta de nosso coração; porque uma vez entrando, não está mais em nosso poder expulsá-la nem moderá-la. Quando somos tentados pela cólera, 1. reprimamo-nos logo pensando noutras coisas e guardando silêncio; 2. à imitação dos apóstolos quando viram o mar agitado pela tempestade, recorramos a Deus, a quem pertence pacificar os corações; 3. se percebermos que a cólera já se introduziu em nosso espírito, esforcemo-nos para readquirir a calma, e procuremos praticar atos de humildade e doçura para com a pessoa contra a qual nos sentimos irritados. Oh! Quanto este procedimento agradará ao Coração mansíssimo de Jesus!

PRÁTICA

Praticarei a mansidão para com os pobres, os enfermos, as pessoas que me contrariam, e principalmente para com meus inimigos; praticá-la-ei também comigo mesmo, evitando perturbar-me pelas faltas e defeitos que me escapam, a despeito dos esforços contínuos que faço para não recair. Assim é que chegarei insensivelmente a tornar meu coração manso como o Coração de Jesus.

AFETOS E SÚPLICAS

Amadíssimo Salvador meu, vós levastes com tanta doçura as ignomínias e as dores de vossa Paixão; e eu, por um nada, tantas vezes voltei-vos as costas! Agradeço-vos me terdes esperado até o presente: se eu tivesse morrido nesta desgraça, não poderia mais vos amar; já que o posso ainda, quero amar-vos de toda a minha alma. Ó Coração mansíssimo de Jesus, acolhei-me agora que me volto para vós, arrependido dos desgostos que vos tenho dado; não me rejeiteis.

Ah! Como me tendes deixado correr após meus próprios desejos, quando desprezava vosso amor, posso temer que me não aceiteis, quando vosso amor é o objeto de todos os meus desejos? Vós me haveis suportado com tanta doçura para vos fazer amar de mim. Pois bem! Quero vos amar. Sim, meu Deus, eu vos amo de todo o meu coração. Ó amor de minha alma, estou resolvido, de agora em diante, a não vos causar conscientemente mais desgosto algum, e fazer tudo o que de mim exigirdes; vossa vontade será meu único amor. Ensinai-me o que devo fazer para agradar ao vosso oração, pronto estou a executar. Quero vos amar verdadeiramente: abraçarei então todas as tribulações que me enviardes. Puni-me durante esta vida, a fim de que possa vos amar eternamente. Meu Deus, dai-me a força de vos ser fiel. Maria, minha terna Mãe, recomendai-me a Jesus; não cesseis de rogar-lhe por mim.

ORAÇÃO JACULATÓRIA

Jesus, manso e humilde de coração, tornai meu coração semelhante ao vosso.
(300 dias de ind. uma vez por dia – 25 de Jan. de 1868)

EXEMPLO

Armella Nicolas1, conhecida pelo nome de – a boa Armella, nasceu em 1608, em Campénéac, na Bretanha. Sua primeira ocupação foi a guarda de rebanhos, emprego que lhe agradava mais que os outros, porque ela ficava só e tinha mais tempo para rezar seu terço e outras orações. Enquanto suas companheiras se divertiam, esta filha de bênção recolhia-se atrás de uma cerca de vegetais, onde Deus lhe fazia gozar mil doçuras. Um dia, ela achou, por acaso, junto de si, um crucifixo; regando-o com suas lágrimas, amorosamente o beijou, e desde então sentiu particular atrativo para a imagem de Jesus crucificado, cujas chagas, principalmente a do Coração, davam-lhe provas de tanto amor. Ela cria ouvir sem cessar no fundo de sua alma uma voz que lhe dizia: «O amor do Salvador para comigo é que lhe causou todos estes padecimentos.» Para ter a felicidade de comungar mais vezes, ela foi empregar-se numa cidade vizinha, Ploërmel. De submissão sem igual a seus amos e a seu confessor, ela dizia: «Contanto que eu não faça minha vontade, de nada me incomodo; mas se eu fizesse minha própria vontade, ter-me-ia por perdida.» Inútil dizer que a cruz foi a sorte de Armella, pois Deus a dá a todos os seus eleitos. Sabendo seu confessor que ela era muito maltratada, disse-lhe um dia que podia abandonar o serviço. «Como meu padre, respondeu, quereis então aconselhar-me a fugir das cruzes que Deus me envia? Nunca o farei, se não me ordenais absolutamente.» E onde ela ia haurir a coragem, senão no Coração mesmo de Jesus? «Quando os homens me perseguiam por suas maledicências e maus tratos, eu logo me dirigia ao divino objeto de meu amor, que me mostrava seu Coração para me encerrar nele; também eu me acolhia a ele como a uma citadela.» Estas eram suas palavras.
Armella Nicolas
(Foto: Thy Mind, O Human!)

Armella falava com prazer de sua condição de criada. «Quando considero, dizia ela, a felicidade do meu estado, não posso cansar-me de bendizer meu divino Senhor por me ter posto nele, e não acho no mundo coisa que seja mais amável. Feliz emprego em que a gente é continuamente desprezada de todo o mundo! Quem poderia estimar uma pobre serva? Todos têm direito de repreendê-la, sobretudo o que faz e diz: Ai! Isto não é amável? Não ensina a ser humilde? Quando alguém me repreende, sinto tanta alegria e tanto amor para com ele, que beijo a terra por onde ele passa, com respeito e amor, e é necessário fazer-me violência para não me lançar a seus pés e agradecer-lhe o bem que me faz. Considero como meus maiores amigos os que me desprezam.» Todas as criaturas falavam de Deus a esta pobre moça educada na escola do Espírito Santo. «Considerando a beleza dos prados, dizia entre mim: Meu Amado é a flor dos campos e o lírio dos vales; é a rosa sem espinhos; eu o convidava a fazer de minha alma o Jardim de suas delícias. De manhã, quando com uma faísca de fogo eu acendia um braseiro, dizia: Ó amor! Assim faríeis nas almas, se elas vos dessem ação bem livre! Quando eu cortava as carnes e as preparava para comer, a voz de meu Amado me ensinava que ele tinha querido sofrer a morte para tornar-se o alimento de minha alma. Se eu via cultivar e semear as terras, parecia-me ver meu Salvador que tinha, em todo o curso de sua vida, suado tanto para cultivar nossas almas e derramar nelas a semente de sua celeste doutrina, e que todavia tão poucas pessoas davam bons frutos; o que me causava dor inexprimível.»

Armella tinha tal desejo da comunhão que dizia um dia ao seu confessor: «Antes quisera sofrer os mais horrorosos suplícios do que ser privada de tão grande bem.» Pouco tempo depois, o homem de Deus lhe disse: «Até hoje vos permiti comungar mais vezes por semana; agora só comungareis aos domingos; ficais contente?»«Sim, meu padre, respondeu ela, farei o que for vossa vontade.» E ao mesmo tempo acendeu-se na sua alma desejo tão ardente deste divino alimento, que logo se manifestou em seu rosto. Perguntou-lhe o confessor então se estava contente. «Sim, meu padre, continuou ela, quero de todo o meu coração tudo o que quereis; preferirei sempre a qualquer outra coisa a vontade de Deus.»«Ide, minha filha, disse então o diretor, comungai não somente como antes, mas todos os dias, sem falhar um só.» Ela morreu cheia de merecimentos, em 1671. (Via des justes, par Carron.)




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FONTE: livro “O Sagrado Coração de Jesus Segundo Santo Afonso Maria de Ligório ou Meditações Para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-Feira do Mês”, tradução portuguesa da 83ª edição, por D. Joaquim Silvério de Souza, Quinta Edição/1926, Ratisbona Typographia de Frederico Pustet, Impressor da Santa Sé, pp. 337-343 – Texto revisto, atualizado e adaptado para o português do Brasil)

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1 Armella Nicolas (1606-1671), foi uma serva que viveu na França no século 17, que passou a ser realizada em alta veneração na Igreja Católica. Ela não sabia ler nem escrever, mas contou aos amigos suas experiências espirituais, incluindo a irmã Jeanne de la Nativite, que escreveu suas experiências.” - cf. https://thymindoman.com/2018/04/23/armella-nicolass-first-vision-account/

quinta-feira, 2 de agosto de 2018


HORA SANTA DO MÊS DE AGOSTO
(Por Santo Afonso de Ligório)


Aparição do Sagrado Coração de Jesus a S. Margarida M. Alacoque
(
Lombardia, Bérgamo. 1890-1910)

CORAÇÃO DE JESUS AFLIGIDO POR CAUSA DA INGRATIDÃO DO MUNDO


Um dia S. Francisco de Assis ia chorando e suspirando pelos caminhos e bosques, e parecia inconsolável. Perguntaram-lhe qual era a causa desta profunda aflição, ele respondeu: «Ai! Como quereis que eu não chore, quando vejo que o amor não é amado! Vejo um Deus amar o homem quase até a loucura, e o homem mostrar-se tão ingrato para com Deus! ...» Se esta ingratidão afligiu tanto o coração de S. Francisco, pensemos quanto mais deveria afligir o Coração de Jesus Cristo, no Jardim de Getsêmani. Ele descera do céu para acender na terra o fogo do amor divino, e via que o homem correspondia muito pouco a tantas provas de amor; só isto era bastante para fazê-lo morrer mil vezes de dor. Quando prestamos serviço a algum de nossos semelhantes e este nos paga com ingratidão, temos um sentimento mais insuportável do que todo padecimento corporal. Que dor devia sentir o Coração tão terno e amável de Jesus, vendo que, em retorno de seus benefícios e amor, só receberia de nossa parte ofensas e injúrias, como Davi tinha predito nestes termos: Pagaram-me o bem com o mal, e o amor com o ódio! (Sl 108, 5) Esta profecia cumpriu-se na Paixão de nosso Salvador. Mas ainda hoje não nos parece que ele se queixa de ser como um estrangeiro entre os seus? (Sl 68, 9) porque vê grande numero deles que vivem sem o amar, como se ele não lhes tivesse feito nunca algum bem, como se nada houvesse padecido por seu amor? Porquanto, os animais mesmos, uma vez que lhes fazemos o menor bem, não deixam de nos mostrar seu reconhecimento! Vêm a nós, a seu modo e nos obedecem, e quando nos veem, mostram alegria: e nós, como é que somos tão ingratos para com Jesus Cristo? Dize-me, pode ele fazer mais para merecer nosso amor? Se o Filho de Deus tivesse de salvar da morte seu Pai mesmo, que mais pudera ter feito que abater-se até revestir-se da carne humana e sacrificar sua vida para o resgatar? Digamos mais: se Jesus Cristo tivesse sido puro homem, e não uma Pessoa divina, e tivesse querido, por alguma prova de afeto, obter o amor de Deus, poderia fazer mais do que fez por nós? E se um daqueles que nos servem tivesse dado seu sangue e sua vida por nosso amor, não teria com isto prendido nosso coração? Não nos teria obrigado a consagrar-lhe nosso amor, ao menos por motivo de reconhecimento? Por que então Jesus Cristo, que chegou ao extremo de dar sua vida por nós, não pode chegar ainda a ganhar nosso amor?

Ah! O que tanto afligiu o Coração de nosso Redentor no Jardim das Oliveiras, foi menos a vista de sua Paixão que a ingratidão pela qual os homens haviam de responder a seu amor. Esta ingratidão é que lhe fez suar sangue, reduzindo-o a agonia, e enchendo-o de tristeza tão grande, que só ela bastava para o fazer morrer, como ele declarou: Minha alma está triste até a morte. Esta ingratidão jó o tinha feito chorar no presépio de Belém. Esta ingratidão é que o fez morrer num desamparo supremo e sem consolação alguma, na cruz. Esta ingratidão é que lhe fez desejar que se desse nos últimos tempos um culto especial de reparação e amor ao seu Sagrado Coração: Eis aqui, dizia ele à (Santa) Bem-aventurada Margarida Maria, eis aqui o Coração que tanto amou os homens! ... e da maior parte deles só recebo ingratidões.

Amemos, pois, Nosso Senhor Jesus Cristo! Mas, quais são os meios de fazer nascer e crescer em nós seu amor?

Primeiramente, devemos evitar toda falta grave ou leve; o Senhor disse: Se alguém me tem amor, guardará meus preceitos. (Jo 14, 26)

O primeiro sinal do amor é a intenção em fazer desaparecer tudo o que pode ofender aquele a quem se ama. Como pode dizer que ama a Deus de todo o seu coração aquele que não teme lhe desagradar, ainda que levemente? O céu me livre, dizia Santa Teresa, do menor pecado cometido com reflexão!

Depois, é necessário, para se conseguir amar a Deus de todo o coração, ter grande desejo de o amar. Os pios desejos são azas que nos transportam ao Coração de Jesus.

Enfim, é necessário tomar a resolução de chegar ao perfeito amor de Deus. Muitas almas desejam dar-se a Deus, mas não conseguem, se resolver adotar os meios para isto; também elas não dão um passo para diante. Se queremos amar a Deus, coloquemos mãos à obra: O que podeis fazer, diz o Sábio, fazei-o sem tardar; (Ecl 9, 10) isto é, desapeguemo-nos das criaturas, amemos a Deus sem reserva, e vamos haurir nas fontes do amor, que são a meditação, a comunhão e a oração.

Ah! Como consola o Coração de Jesus, e quão ternamente é amada a alma que se dá a ele sem reserva, não busca em tudo senão lhe agradar, e antes quereria morrer mil vezes que ofendê-lo! Roguemos continuamente ao Coração de Jesus a graça de o amar; peçamos também ao Coração de Maria; esta divina Mãe é a dispensadora de todas as graças; e o que ela dá com melhor vontade, é o dom do amor divino.

PRÁTICA

Pensarei muitas vezes, principalmente durante a Hora Santa, em Jesus Cristo chorando nossas ingratidões; com ele as chorarei, prometendo-lhe para o futuro amor fiel e reconhecido.

AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Senhor, chorando então a ingratidão dos homens, choráveis também minha ingratidão e a ruína de minha alma. Amável Redentor meu, vós choráveis à vista do mal que eu fiz a mim mesmo, banindo-vos do meu coração e forçando-vos a me condenar ao inferno, depois de terdes morrido para me salvar. Ah! Deixai-me chorar, a mim que vos fiz a injúria de vos voltar às costas e de me separar de vós; depois de me haverdes dado tantas provas de amor.

Eterno Pai, pelas lágrimas que vosso divino Filho derramou sobre mim, dai-me viva dor de meus pecados. E vós, ó terno e afetuoso Coração de meu Jesus, compadecei-vos de mim: profundamente detesto os desgostos que vos causei, e tomo a resolução de não amar senão a vós.

ORAÇÃO JACULATÓRIA

Ó Coração tão terno de Jesus, oxalá nunca me esqueça de vos.

EXEMPLO

Os padecimentos operam em nós um peso imenso de glória: esta é a razão, porque eles são a sorte das almas mais queridas de Deus. Santa Ludvina nos fornece brilhante exemplo desta verdade. Desde a idade de doze anos, esta admirável donzela se negou a sair de casa vez alguma senão com seus pais e tomou como regra, a que não faltava, evitar toda conversação com moços, receando que o fogo da volúpia, acendendo-se em seu seio, alterasse a brancura de sua veste de inocência. Dotada das mais belas qualidades do corpo, espírito e coração, ela foi, ainda jovem, pedida em matrimônio pelas melhores famílias. Seu pai, apertando-a um dia neste ponto, recebeu a seguinte resposta: «Eu estimo muito minha virgindade para sacrificá-la a um esposo mortal. Ao Rei dos reis é que eu quero ser unida.» A mãe entrou nos desígnios de sua filha e disse a seu marido: «Pois que ela é nossa filha única, demos-lhe ao Deus único.» Animada por estas palavras de sua mãe, Ludvina retornou: «Se quisessem obrigar-me ao matrimonio, eu obteria de Jesus alguma deformidade tão repulsiva, que ninguém havia de me querer.» Logo, com efeito, em consequência de 'uma queda, abriu-se-lhe uma chaga que não houve remédio que curasse. A gangrena instalou-se e a putrefação fez nascer vermes, que lhe devoraram as entranhas em pouco tempo. Cada um de seus membros tinha um tormento particular. Ludvina sofreu este martírio, abandonada de todos, durante 38 anos.

Jesus Cristo foi sua consolação única. Ela dizia com ternura a seu bom anjo: «Ó meu irmão, dizei ao meu Esposo que desfaleço de amor. Oh! Se eu pudesse atrair a mim o meu amado, introduzi-lo-ia no fundo de meu Coração, ou antes eu entraria no seu Coração, e nele me abismaria inteiramente.» Nas suas dores, dia e noite, ela não fazia senão bendizer a vontade de Deus com a paciência de Jó. Um dia, Jesus lhe apareceu, com a cabeça coroada de espinhos, as mãos e pés traspassados, e o Coração aberto. Ele se mostrou também à nossa Santa sob a forma de uma hóstia, no meio da qual se viu um menino crucificado, cujas chagas das mãos, dos pés e do Coração pareciam ensanguentadas, prodígio de que foi testemunha sua família. Muitas vezes, para a consolar, Jesus apertou sua esposa sobre seu divino Coração e lhe deu a beijar suas chagas sagradas. Ela converteu muitos pecadores, falando-lhes das misericórdias do Coração de Jesus. Uma vez, entre outras, um príncipe veio de um país longínquo para a consultar, dizia ele, sobre certos embaraços de consciência. A Santa, percebendo que ele não se animava a tocar no ponto, pôs o dedo sobre as chagas que ele se envergonhava de lhe mostrar, e não omitiu diligência alguma para fazer nascer na sua alma salutar arrependimento. O príncipe, ouvindo-a, derramou lagrimas. «Vós chorais, disse-lhe ela, as menores das ofensas que fizestes a Deus; pecados muito mais graves cometestes e deveis agora chorá-los.» Depois, ela descobriu-lhe seus pecados mais graves, sugeriu-lhe os meios de se livrar deles, e acabou por lhe dizer: «Continuai príncipe a marchar na estrada em que acabais de entrar; confessai-vos com sinceridade, e vive de agora em diante em penitência. Por este meio tornareis propício o Coração do divino Mestre.»

A noite que seguiu à morte de Santa Ludvina, duas santas almas tiveram a mesma visão: o divino Salvador recebendo sua esposa no céu, com as celestes milícias que cantavam sua triunfal entrada, apertou-a com paternal amor sobre seu divino Coração. Assim é que a tristeza se muda em alegria, a dor em glória. Oh! Quanto é doce sofrer amando!, exclamava Santo Afonso. (Vie, par le P. Bruchman.)





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FONTE: livro “O Sagrado Coração de Jesus Segundo Santo Afonso Maria de Ligório ou Meditações Para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-Feira do Mês”, tradução portuguesa da 83ª edição, por D. Joaquim Silvério de Souza, Quinta Edição/1926, Ratisbona Typographia de Frederico Pustet, Impressor da Santa Sé, pp. 249-255 – Texto revisto, atualizado e adaptado para o português do Brasil)