HORA
SANTA DO MÊS DE ABRIL – QUINTA-FEIRA SANTA
ORAÇÃO
DE PADRE PIO PARA MEDITAÇÃO DA PAIXÃO
(Uma
sugestão nossa para Hora Santa desta Quinta-Feira da Paixão)
℣.
Espírito Divino iluminai a minha inteligência, inflamai o meu
coração, enquanto medito na Paixão de Jesus.
℟.
Ajudai-me a penetrar nesse mistério de amor e sofrimento do meu
Deus, que, feito homem sofre, agoniza, morre por mim.
Ó
Eterno, ó Imortal, descei até nós para sofrer um martírio
inaudito, a morte infame sobre a cruz no meio dos insultos, de
impropérios e ignomínias, a fim de salvar a criatura que O
ultrajou e continua a atolar-se na lama do pecado.
O
homem saboreia o pecado e, por causa do pecado, Deus está
mortalmente triste; os tormentos duma agonia cruel fazem-No suar
sangue!
Não,
não posso penetrar neste oceano de amor e de dor sem a ajuda da
Vossa graça, ó meu Deus.
Abri-me
o acesso à mais íntima profundidade do Coração de Jesus, para que
eu possa participar da amargura que O conduziu ao Jardim das
Oliveiras, até às portas da morte — para
que me seja dado consolá-Lo no seu extremo abandono.
Ah!
Pudesse eu unir-me a Cristo, abandonado pelo Pai e por Si próprio, a
fim de expirar com Ele!
Maria,
Mãe das Dores, permiti que eu siga Jesus e participe intimamente
da Sua Paixão e do Seu sofrimento!
Meu
Anjo da guarda velai para que as minhas faculdades se concentrem
todas na agonia de Jesus e nunca mais se desprendam. Amém.
MEDITAÇÃO
DA AGONIA
PARTE
I
(Primeira
Metade da Hora)
No
termo da Sua vida terrestre, depois de nos ter inteiramente entregue
no Sacramento do Seu amor, o Senhor dirige-se ao Jardim das
Oliveiras, conhecido dos discípulos, mas de Judas também.
Pelo
caminho ensina-os e prepara-os para a Sua Paixão iminente.
Convida-os, por Seu amor, a sofrer calúnias, perseguições até à
morte, para os transfigurar à semelhança d’Ele, modelo divino.
No
momento de começar a Sua dolorosa Paixão, não é n’Ele que
pensa; mas pensa em ti.
Que
abismos de amor não contém o Seu Coração!
A
Sua Santa Face é toda tristeza, toda ternura.
As
Suas palavras jorram da profundidade mais íntima do Seu coração, e
são todas palpitação de amor.
— Ó
Jesus, o meu coração perturba-se quando penso no amor que Vos
obriga a correr ao encontro da Vossa Paixão.
Ensinastes-nos
que não há amor maior que dar a vida por aqueles a quem se ama.
Eis
que estais prestes a selar estas palavras com o Vosso exemplo.
No
Jardim da Oliveiras, o Mestre afasta-se dos discípulos e só leva
três testemunhas da Sua Agonia: Pedro, Tiago e João.
Eles,
que O viram transfigurado sobre o Tabor, terão força para
reconhecer o Homem-Deus neste ser, esmagado pela angústia da morte?
Ao
entrar no Jardim disse-lhes:
“Ficai
aqui! Velai e rezai para não cairdes em tentação. Acautelai-vos,
porque o inimigo não dorme. Armai-vos antecipadamente com as armas
da oração para não serdes surpreendidos e arrastados para o
pecado. É a hora das trevas”.
Tendo-os
exortado, afastou-se à distância de uma pedrada e prostrou-Se com a
face em terra.
A
Sua alma está mergulhada num mar de amargura e extrema aflição.
É
tarde. Na lividez da noite agitam-se sombras sinistras. A Lua parece
injetada de sangue.
O
vento agita as árvores e penetra até aos ossos. Toda a natureza
como que estremece de secreto pavor!
Ó
noite, como nunca houve outra semelhante. Eis o lugar onde Jesus vem
orar.
Ele
despoja a Sua Santa Humanidade da força à qual tem direito pela Sua
união com a Divina Pessoa, e mergulha-a num abismo de tristeza, de
angústia, de abjeção.
Seu
espírito parece submergir-se.
Via
antecipadamente toda a Sua Paixão. Vê Judas, Seu apóstolo tão
amado, que O vende por alguns dinheiros. Ei-lo a caminho do
Getsêmani, para O trair e entregar! Todavia, ainda há pouco não o
alimentou com a Sua Carne, não lhe deu a beber o Seu Sangue?
Prostrado diante dele, lavou-lhe os pés, apertou-os contra o
Coração, beijou-os com os Seus lábios. Que não fez Ele para o
reter à beira do sacrilégio, ou pelo menos para o levar a
arrepender-se! Não! Ei-lo que corre para a perdição.
Jesus
chora.
Minuto
para meditação…
Jesus
se vê arrastado pelas ruas de Jerusalém onde ainda há alguns dias
O aclamavam como Messias. Vê-se esbofeteado diante do
sumo-sacerdote. Ouve os gritos: À morte! Ele, o autor da vida, é
arrastado como um farrapo de um para outro tribunal. O povo, o Seu
povo tão amado, tão cumulado de bênçãos, vocifera contra Ele,
insulta-O, reclama aos gritos a Sua morte, e que morte, a morte sobre
a cruz. Ouve as suas falsas acusações.
Jesus
se vê flagelado, coroado de espinhos, escarnecido, apupado como
falso rei. Vê-se condenado à cruz, subindo ao Calvário, sucumbindo
ao peso do madeiro, trêmulo, exausto. Ei-Lo chegado ao Calvário,
despojado das roupas, estendido sobre a cruz, impiedosamente
trespassado pelos pregos, ofegante entre indizíveis torturas.
Meu
Deus! Que longa agonia de três horas, até sucumbir no meio dos
apupos da gentalha, ébria de cólera!
Ei-Lo
com a garganta e as entranhas, devoradas por sede ardente. Para
estancar essa sede, dão-Lhe vinagre e fel.
Vê
o Pai que O abandona, e a Mãe, aniquilada pela dor.
Para
acabar, a morte ignominiosa no meio de dois ladrões.
Um
reconhece-O, e pôde salvar-se; o outro blasfema e morre réprobo.
Vê
Longuinhos, que se aproxima para Lhe trespassar o Coração. Ei-la,
consumada, a extrema humilhação do corpo e da alma, que separam.
Tudo
isto, cena após cena, passa diante dos Seus olhos, apavora-O,
acabrunha-O.
Desde
o primeiro instante tudo avaliou, tudo aceitou.
Porque,
pois, este terror extremo? É que expôs a Sua Santa Humanidade como
escudo, captando os ataques da Justiça, ultrajada pelo pecado.
Sente
vivamente no espírito, mergulhado na maior solidão, tudo o que vai
sofrer.
Para
tal pecado, tal pena. Está aniquilado, porque Se entregou, Ele
próprio, ao pavor, à fraqueza, à angústia.
Parece
ter chegado ao auge da dor.
O
Senhor está prostrado, com a face em terra, diante da Majestade do
Pai. Jaz no pó, irreconhecível, a Santa Face do Homem-Deus, que
goza da visão beatífica. Meu Jesus! Não sois Deus? Não sois o
Senhor do Céu e da Terra, igual ao Pai? Para que haveis de
abaixar-Vos até perder todo o aspecto humano?
Ah,
sim… Compreendo! Quereis ensinar-me, a mim, orgulhoso, que para
entender o Céu devo abismar-me até ao fundo da Terra. É para
expiar a minha arrogância que Vos deixais afundar no mar da agonia.
É para reconciliar o Céu com a Terra que Vos abaixais até à terra
como se quisésseis dar-lhe o beijo da paz…
Minuto
para meditação…
Jesus
ergue-se, volve para o céu um olhar suplicante, ergue os braços,
reza. Cobre-Lhe o rosto mortal palidez! Implora o Pai que Se desviou
d’Ele. Reza com confiança filial, mas sabe bem qual o lugar que
Lhe foi marcado. Sabe-se vítima a favor de toda a raça humana,
exposta à cólera de Deus ultrajado. Sabe que só Ele pode
satisfazer a Justiça infinita e conciliar o Criador com a criatura.
Quer, reclama que seja assim. A Sua natureza, porém, está
literalmente esmagada. Insurge-Se contra tal sacrifício. Todavia, o
Seu espírito está pronto à imolação e o duro combate continua.
Jesus, como podemos pedir-Vos para sermos fortes, quando Vos vemos
tão fraco e acabrunhado?
Sim,
compreendo! Tomastes sobre Vós a nossa fraqueza. Para nos dardes a
Vossa força, Vos tornastes a vítima expiatória. Quereis
ensinar-nos como só em Vós devemos depositar confiança, até
quando o céu nos parece de bronze.
Na
Sua Agonia, Jesus clama ao Pai:
“Se
é possível, afasta de Mim este cálice”.
É
o grito da natureza que, prostrada, recorre cheia de confiança ao
Céu. Embora saiba que não será atendido, porque não deseja sê-lo,
contudo ora.
Meu
Jesus, por que pedis o que não podeis obter? Que mistério
vertiginoso! A mágoa que Vos dilacera Vos faz mendigar a ajuda e
conforto, mas o Vosso amor por nós e o desejo de nos levar a Deus
Vos faz dizer:
“Não
se faça a Minha vontade, mas a Tua”.
O
Seu coração desolado tem sede de ser confortado, tem sede de
consolação. Docemente, Ele levanta-se, dá alguns passos
vacilantes; aproxima-se dos discípulos; eles, pelo menos, os amigos
de confiança, hão de compreender e partilhar da Sua mágoa.
Encontra-os
mergulhados no sono. De súbito sente-Se só, abandonado!
“Simão
dormes?” pergunta docemente a Pedro.
Tu,
que há pouco Me dizias que querias seguir-Me até à morte!
Vira-Se
para os outros “Não podeis velar uma hora Comigo?”.
Uma
vez mais, esquece os sofrimentos, não pensa senão nos discípulos:
“Velai
e orai para não cairdes em tentação!”.
Parece
dizer: “Se Me esquecestes tão depressa, a Mim, que luto e
sofro, pelo menos no vosso próprio interesse, velai e orai!”.
Mas eles, tontos de sono, mal O ouvem.
Ó
meu Jesus, quantas almas generosas, tocadas pelos Vossos lamentos,
Vos fazem companhia no Jardim das Oliveiras, compartilhando da Vossa
amargura e da Vossa angústia mortal.
Quantos
corações têm respondido generosamente ao Vosso apelo através dos
séculos! Possam eles Vos consolar e, comparticipando do Vosso
sofrimento, possam eles cooperar na obra da salvação!
Possa
eu próprio ser desse número e Vos consolar um pouco, ó meu Jesus!
Minuto
para meditação…
MEDITAÇÃO
DA AGONIA
PARTE
II
(Segunda
Metade da Hora)
Jesus
volta ao local da oração e se apresenta diante dos olhos um outro
quadro bem mais terrível. Desfilam diante d’Ele todos os nossos
pecados, nos seus mais ínfimos pormenores. Vê a extrema
vulgaridade dos que os cometem. Sabe a que ponto ultrajam a divina
Majestade. Vê todas as infâmias, todas as obscenidades, todas
as blasfêmias que mancham os corações e os lábios, criados
para cantar a glória de Deus. Vê os sacrilégios que desonram
padres e fiéis. Vê o abuso monstruoso dos sacramentos,
instituídos por Ele para nossa salvação, e que facilmente
podem ser causa de nos perdermos.
Tem
de cobrir-Se com toda a lama fétida da corrupção humana. Tem de
expiar cada pecado à parte, e restituir ao Pai toda a glória
roubada. Para salvar o pecador, tem de descer a esta imundice.
Mas, isto não O detém. Essa lama rodeia-O, submerge-O, oprime-O.
Ei-Lo
em frente do Pai, Deus da Justiça, Ele, Santo dos Santos, vergado ao
peso dos nossos pecados, tornando-Se igual aos pecadores. Quem poderá
sondar o Seu horror e a Sua extrema repugnância? Quem compreenderá
a extensão da horrível náusea, do soluço de desgosto? Tendo
tomado todo o peso sobre Ele sem exceção, sente-Se esmagado por
monstruoso fardo, e geme sob o peso da Justiça divina, em face do
Pai que permitiu ao Seu Filho Se oferecesse como vítima pelos
pecados do mundo, e se transformasse numa espécie de maldito.
A
Sua pureza estremece diante desta massa infame mas ao mesmo tempo vê
a Justiça ultrajada, o pecador condenado… No Seu Coração
defrontam-se duas forças, dois amores. Vence a Justiça ultrajada.
Mas, que espetáculo infinitamente lamentável! Este homem, carregado
com todos os nossos crimes. Ele, essencialmente Santidade,
confundido, embora exteriormente, com os criminosos… Treme como uma
folha.
Para
poder afrontar esta terrível agonia abisma-Se na oração. Prostrado
diante da Majestade do Pai, diz:
“Pai,
afasta de mim este cálice”.
É
como se dissesse: “Pai, quero a Tua glória! Quero o
cumprimento da Tua justiça. Quero a reconciliação do gênero
humano. Mas não por este preço! Que Eu, santidade essencial, seja
assim salpicado pelo pecado, ah! não… isso não! Ó Pai, a Quem
tudo é possível, afasta de Mim este cálice e encontra outro meio
de salvação nos tesouros insondáveis da Tua sabedoria. Porém, se
não quiseres, que a Tua vontade, e não a Minha, se faça!”
Desta
vez ainda, fica sem efeito a prece do Salvador. Sente a angústia
mortal, ergue-Se a custo em busca de consolação. Sente como as
forças O abandonam. Arrasta-Se penosamente até junto dos
discípulos. Uma vez mais, encontra-os a dormir. A Sua tristeza
torna-se mais profunda. E contenta-Se simplesmente em os acordar.
Sentiram-se confusos? Sobre isto nada sabemos. Só vemos Jesus
indizivelmente triste. Guarda para Ele toda a amargura deste
abandono.
Mas
Jesus, como é grande a dor que leio no Teu Coração, transbordante
de tristeza. Vos vejo afastando-Vos dos Vossos discípulos,
ferido, todo magoado! Pudesse eu dar-Vos algum reconforto,
consolar-Vos um pouco… mas, incapaz de mais nada, choro aos Vossos
pés. Unem-se às Vossas as lágrimas do meu amor e da minha
compunção. E elevam-se até ao trono do Pai, suplicando que
tenha piedade de nós, que tenha piedade de tantas almas, mergulhadas
no sono do pecado e da morte.
Minuto
para meditação…
Jesus
volta ao lugar onde rezara, extenuado e em extrema aflição. Cai,
sim, mas não se prostra. Cai sobre a terra. Sente-Se despedaçado
por angústia mortal e a Sua prece torna-se mais intensa.
O
Pai desvia o olhar, como se Ele fosse o mais abjeto dos homens.
Parece-me
ouvir os lamentos do Salvador:
“Se,
ao menos as criaturas por causa de quem Eu tanto sofro quisessem
aproveitar-se das graças obtidas através de tantas dores! Se, ao
menos reconhecessem pelo seu justo valor, o preço pago por Mim para
resgatar e dar-lhes a vida de filhos de Deus! Ah! este amor
despedaça-Me o Coração, bem mais cruelmente do que os carrascos
que irão, em breve, despedaçar-Me a carne…”
Vê
o homem que não sabe, porque não quer saber; e blasfema do Sangue
Divino e, o que é bem mais irreparável, serve-se desse Sangue para
sua condenação.
Quão
poucos o hão de aproveitar, quantos outros correrão ao encontro do
próprio extermínio!
Na
grande amargura do Seu Coração, continua a repetir:
“Quão
poucos aproveitaram o meu Sangue!”
O
pensamento, porém, deste pequeno número basta para afrontar a
Paixão e morte.
Nada
existe, não há ninguém que possa dar-Lhe sombra de consolação. O
Céu fechou-se para Ele. O homem, embora esmagado ao peso dos
pecados, é ingrato e ignora o seu Amor.
Sente-se
submerso num mar de dor e grita no estertor da agonia:
“A
Minha Alma está triste até a morte”.
Sangue
Divino, que jorras, irresistivelmente do Coração de Jesus, corres
por todos os Seus poros para lavar a pobre Terra ingrata. Permite-me
que eu Te recolha, Sangue tão precioso, sobretudo estas primeiras
gotas. Quero guardar-Te no cálice do meu coração.
És
prova irrefutável deste Amor, única causa de teres sido vertido.
Quero purificar-me através de Ti, Sangue preciosíssimo!
Quero com Ele purificar todas as almas, manchadas pelo pecado.
Quero oferecer-Te ao Pai.
É
o sangue do Seu Filho Bem-Amado que caiu sobre a Terra para a
purificar. É o Sangue do Seu Filho que ascende ao Seu Trono para
reconciliar a Justiça ultrajada. A alegria é na verdade muito
mais veemente do que a dor.
Minuto
para meditação…
Jesus
chegou então ao fim do caminho doloroso?
Não.
Ele não quer limitar a torrente do Seu amor! É preciso que o homem
saiba quanto ama o Homem Deus. É preciso que o homem saiba até que
abismos de abjeção pode levar amor tão completo. Embora a Justiça
do Pai esteja satisfeita com o suor do Sangue Preciosíssimo, o homem
carece de provas palpáveis deste amor.
Jesus
seguirá pois até ao fim: até à morte ignominiosa sobre a cruz. O
contemplativo conseguirá talvez intuir um reflexo desse amor que o
reduz aos tormentos da Santa Agonia no Jardim das Oliveiras. Aquele,
porém, que vive, entorpecido pelos negócios materiais, procurando
muito mais o mundo do que o Céu, deve vê-Lo também pelo aspecto
externo, pregado à cruz, para que, ao menos, o comova a visão do
Seu Sangue e a Sua cruel agonia.
Não.
O Seu Coração, transbordante de amor, não está ainda contente!
Domina-O a aflição, e ora de novo:
“Pai,
se este cálice não pode ser afastado, sem que Eu o beba, faça-se a
Tua Vontade”.
A
partir deste instante, Jesus responde do fundo do Seu Coração
abrasado de amor, ao grito da humanidade que reclama a Sua morte como
preço da Redenção. À sentença de morte que Seu Pai pronuncia no
Céu, responde a Terra reclamando a Sua morte. Jesus inclina a sua
adorável cabeça:
“Pai,
se este cálice não pode ser afastado, sem que eu o beba, faça-se a
Tua Vontade”.
E
eis que o Pai Lhe envia um Anjo de consolação. Que alívio pode um
Anjo oferecer ao Deus da força, ao Deus invencível, ao Deus
Todo-Poderoso? Mas este Deus quis tornar-Se indefeso e fraco. Tomou
sobre os ombros toda a nossa fraqueza. É o Homem das Dores, em luta
com a agonia.
Ora
ao Pai por Si e por nós. O Pai recusa atendê-Lo, pois deve morrer
por nós. Penso que o Anjo se prostra profundamente diante da Beleza
eterna, manchada de pó e Sangue, e com indizível respeito suplica a
Jesus que beba o cálice, pela glória do Pai e pelo resgate dos
pecadores.
Rezou
assim, para nos ensinar a recorrer ao Céu, unicamente quando as
nossas almas estão desoladas como a Sua.
Ele,
a nossa força, virá ajudar-nos, pois que consentiu em tomar sobre
os ombros todas as nossas angústias.
Sim,
meu Jesus, é preciso que bebais o cálice até ao fundo! Estais
votado à morte mais cruel.
Jesus,
que nada possa separar-me de Vós, nem a vida nem a morte! Se, ao
longo da vida, só desejo unir-me ao Vosso sofrimento, com infinito
amor, ser-me-á dado morrer Convosco no Calvário e Convosco subir à
Glória. Se Vos sigo nos tormentos e nas perseguições tornar-me-eis
digno de Vos amar um dia, no Céu, face a face, Convosco, cantando
eternamente o Vosso louvor em ação de graças pela cruel Paixão.
Minuto
para meditação…
Vede!
Forte, invencível, Jesus ergue-Se do pó! Não desejou Ele o
banquete de sangue com o mais forte desejo? Sacode a perturbação
que O invadira, enxuga o suor sangrento da face, e, em passo firme
dirige-Se para a entrada do Jardim.
Onde
ides, Jesus? Ainda há instantes, não estavas empolgado pela
angústia e pela dor? Não Vos vi eu, trêmulo, e como que esmagado
sob o peso cruel das provações que vão tombar sobre Vós? Aonde
ides nesse passo intrépido e ousado? A quem vais entregar-Vos?
“— Escuta,
Meu filho. As armas da oração ajudaram-Me a vencer; o espírito
dominou a fraqueza da carne. A força foi-Me transmitida, enquanto
orava, e agora eis-Me pronto a tudo desafiar. Segue o Meu exemplo e
arranja-te com o Céu, como Eu fiz. “
Jesus
aproxima-Se dos apóstolos. Continuam a dormir! A emoção, a hora
tardia, o pressentimento de alguma coisa horrível e irreparável, a
fadiga — e ei-los mergulhados em sono de chumbo.
Jesus
tem piedade de tanta fraqueza.
“O
espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
Jesus
exclama:
“Dormi
agora e repousai”.
Detém-se
por instante. Ouvem que Jesus se vai aproximando, e entreabrem os
olhos…
Jesus
continua a falar:
“Basta.
É chegada a hora; eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos
dos pecadores. Levantai-vos, vamos; eis que se aproxima o que Me há
de entregar”.
Jesus
vê todas as coisas com os Seus olhos divinos. Parece dizer:
“Meus
amigos e discípulos, vós dormis, enquanto que os Meus inimigos
velam e se aproximam para virem prender-Me! Tu, Pedro, que há pouco
te julgavas bastante forte para Me seguir até na morte, também tu
dormes agora! Desde o princípio tens-Me dado provas da tua fraqueza!
Está, porém, tranqüilo. Aceitei sobre Mim a tua fraqueza e rezei
por ti. Depois de confessares a tua falta, serei a tua força e
apascentará os Meus rebanhos…
E
tu, João, também tu dormes? Tu, que acabavas de sentir as pulsações
do Meu Coração, não pudeste velar uma hora Comigo!
Levantai-vos,
vamos partir, já não há tempo para dormir. O Inimigo está à
porta! É a hora do poder das trevas! Partamos. De livre vontade, vou
ao encontro da morte. Judas acorre para trair-Me, e Eu vou ao seu
encontro. Não impedirei que se cumpram à risca as profecias. Chegou
a Minha hora: a hora da Misericórdia Infinita.”
Ressoam
os passos; archotes acesos enchem o jardim de sombras e púrpura.
Intrépido e calmo, Jesus avança seguido pelos discípulos.
Ó
meu Jesus, dai-me a Vossa força quando a minha pobre natureza
se revolta diante dos males que a ameaçam, para que possa aceitar
com amor as penas e aflições desta vida de exílio. Uno-me com
toda a veemência aos Vossos méritos, às Vossas dores, à Vossa
expiação, às Vossas lágrimas, para poder trabalhar Convosco na
obra da salvação. Possa eu ter a força de fugir ao pecado,
causa única da Vossa agonia, do Vosso suor de Sangue, e da Vossa
morte.
Afasteis
de mim o que Vos desagrada, e imprimi no meu coração com o Fogo do
Vosso santo Amor todos os Vossos sofrimentos. Abraçai-me tão
intimamente, em abraço tão forte e tão doce, que nunca eu possa
deixar-Vos sozinho no meio dos vossos cruéis sofrimentos.
Só
desejo um único alívio: repousar sobre o Vosso Coração. Só
desejo uma única coisa: partilhar da Vossa Santa Agonia. Possa a
minha alma inebriar-se com o Vosso Sangue e alimentar-se com o pão
da Vossa dor! Amém.
Minuto
para meditação…
(Pai-Nosso,
Ave-Maria e Glória)
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FONTE:
Apostoli Christ.